O Twitter já viu melhores dias.
Foi comprado por um dos maiores otários do mundo e desde então tem sido só ladeira abaixo. Houve (há?) uma tentativa de mudança de nome, mas ninguém com meio neurónio funcional se refere ao Twitter pelo novo nome. Pior do que essa tentativa, foram as outras mudanças efetuadas. O selo de verificado passou a poder ser comprado, em vez de ser simplesmente um selo de comprovação de identidade. Quem compra esse selo, tem os tweets destacados nas timelines alheias e os seus comentários a tweets são mostrados primeiro que outros, por mais irrelevantes que sejam. Há bots por tudo quanto é lado: bots da pornografia, bots das criptomoedas, bots da extrema-direita, bots de vender merch aleatório de coisas que nem sei bem o que são. Os Termos e Condições da plataforma foram alterados e agora as pessoas podem ser abertamente racistas, homofóbicas, misóginas e por aí afora. Inclusive, já aconteceu duas vezes o dono da plataforma recuperar contas famosas depois de elas terem publicado imagens de abusos sexuais a crianças, a única coisa que hoje em dia faz com que uma conta seja automaticamente suspensa. Fê-lo porque pode, porque gosta das ditas contas e porque é um otário, como escrevi acima e nunca é demais repetir.
Em suma, o Twitter tornou-se um esgoto a céu aberto e mais parva sou eu por ser a rede social onde perco mais tempo.
Tenho conta desde 2009 mas só em 2016 comecei a ser usuária frequente. Quase 10 anos de Twitter praticamente diário, meu deus, que doença! Será, com elevada probabilidade, a rede social onde passei mais tempo na vida. Outras poder-me-ão ter tido intensamente, mas num espaço temporal mais curto. Que horror, é melhor não me pôr a fazer contas do tempo gasto online para não deprimir.
A verdade é que o Twitter é para mim um vício e um prazer. Para quem gosta de ler em vez de ser constantemente bombardeado com fotos e vídeos, o Twitter é a melhor solução. O seu imediatismo também o torna bastante único. Houve um terramoto, um tiroteio, uma inundação? Está no Twitter antes de chegar às outras redes ou aos meios de comunicação tradicionais. Também é ótimo para ter acesso a conhecimento especializado em pequenas doses fáceis de compreender. Sigo médicos, professores, linguistas, uma astrofísica, cientistas climáticos, historiadores, vários ativistas por diversas causas (direitos lgbtq+, pessoas com deficiência, minorias étnicas…), biólogos, jornalistas, economistas e por aí vai. As coisas que aprendi no Twitter são incontáveis.
Outra coisa boa no Twitter - rara mas icónica - é por acaso estar online quando acontecem momentos épicos. A morte da Rainha Isabel II foi hilariante, longa vida à Irlanda. No twitter português, aquela noite durante o confinamento da Covid-19 em que dois gays “famosinhos” lavaram a roupa suja dos seus pecados pandémicos em praça pública, dando origem ao lendário APAGA MALUCO, foi impagável. Ver pessoas a reagir em tempo real a coisas que estão a acontecer, ver as piadas e os memes que surgem, é muito bom, não vou negar.
Seguindo esta linha dos tais momentos épicos, a verdade é que o Twitter tem um papel muito importante na cultura popular dos seus utilizadores. Filmes que uma pessoa viu e foi falar bem na rede do pássaro, tornam-se filmes que muitas pessoas viram e aconselham outros a ver. Às vezes nem precisa de ser um filme conhecido, basta alguém que seguimos falar sobre alguma coisa para nos despertar a atenção para a existência disso. Foi assim que eu tive a minha fase kpop, que resolvi ver How to Have Sex, que fui ouvir Olivia Rodrigo, Chappell Roan, Lucy Dacus, boygenius, entre outras; que acompanhei séries como Arcane, Bad Sisters, Ginny & Georgia, The Bear, até o Pôr do Sol. Foi para o Twitter que fui reclamar da última temporada horrorosa de Game of Thrones. Há um aspeto de partilha de cultura inerente a uma rede em que as pessoas podem falar tão informal e abertamente sobre o que estão a ver/ler/ouvir que a enriquece muito. Claro que depois há opiniões sobre a dita cultura que não lembram a ninguém e deviam ficar guardadas, mas acho um pequeno preço a pagar pelo acesso a tantas interações sobre cultura e arte e desporto - preço esse que ao menos é rico no fator entretenimento.
Além disso, como linguista amadora, derivado da minha formação académica em profissões associadas a línguas, um aspeto do Twitter que me é querido é o contacto com a realidade diária das línguas. As gírias, as novas expressões, os insultos criativos, os estrangeirismos, as variantes regionais/nacionais - mesmo os tweets escritos em português, inglês, espanhol correto(s) - tudo me ajuda a manter um contacto próximo com as línguas que conheço tal como as pessoas as falam e sinto que isso me torna, não só uma melhor falante das minhas línguas, como também uma pessoa que as conhece mais de perto, tal como são utilizadas pelos seus falantes nativos.
Por fim, como em tudo na vida, embora o pior do Twitter possam ser as pessoas, o melhor do Twitter também são as pessoas. A mulher que me trouxe a este espaço conheci-a primeiro no Twitter e depois passou a amiga da vida real, quando a convenci a vir comigo fazer um curso de astrologia para iniciantes. Uma amiga próxima, conheci-a no Twitter através do fandom de uma banda da qual gostávamos as duas na altura, convidei-a para o jantar de passagem de ano que ia dar em minha casa e hoje em dia já passámos férias juntas várias vezes. Também outra amiga, originalmente já amiga de uma grande amiga da vida real, conheci-a graças ao Twitter, porque a nossa amiga em comum juntou-nos num group chat por acidente, acabámos por nos seguir na rede e hoje em dia falamos fora dela e já estivemos juntas pessoalmente várias vezes.
Não são as únicas. Fui ver a Dua Lipa no Atlântico/Meo Arena com uma menina do Twitter e com outra moça diferente fui passear à Feira do Livro uma vez. Um jovem com quem “trabalhei” num blog há anos e anos, reencontrei-o no Twitter e entretanto já fomos tomar café e ao cinema um par de vezes. Uma colega da faculdade com quem fui em Erasmus, não nos falávamos há anos, reencontrámo-nos no Twitter e é um prazer segui-la, mesmo eu sendo benfiquista saudável e ela doente pelo Sporting. Uma menina que sigo há anos e hoje em dia só tem conta privada, já dei com ela mais do que uma vez na vida real, quando por acaso vamos ao mesmo evento. Uma jovem twitteira levou-me a experimentar escalada, o seu desporto favorito. Outro moço com quem comecei a interagir mais recentemente, convidei-o a vir comigo ver o jogo da seleção num café (perdemos contra a Geórgia, miséria). Duas meninas que são grandes amigas e têm gostos musicais parecidos aos meus, uma vez juntámo-nos num miradouro de Lisboa a beber umas sidras e a falar das nossas vidas amorosas. Uma das minhas contas favoritas do site, se não A favorita, é uma pessoa que por acaso e sabe-se lá como gosta muito de mim, está num group chat hilariante comigo, e já nos encontrámos duas vezes quando fui ao Porto. Adoro-a.
E não são só estas pessoas, as que passaram da linha digital para a real. Há pessoas com quem interajo regularmente há muitos anos, cujos gostos vi mudar e evoluir como elas viram os meus, que nunca conheci em pessoa. Há gente que me taga em coisas que consideram que vou achar engraçado, há pessoas que partilham coisas da sua vida pessoal nas minhas DMs ou falam de coisas que gostam ou das quais têm conhecimento, mesmo quando eu sou ignorante nessa área. Tenho um companheiro de aniversário, que é sempre dos primeiros a dar-me os parabéns no nosso dia de anos.
Acima de tudo, foi no Twitter que uma gostosa descobriu a minha conta e achou que eu era engraçada, simpática e tinha opiniões corretas (eheh). Fomos falando mais e mais, os sentimentos crescendo e hoje em dia cá estamos, às vezes geograficamente distantes (vezes demais), mas emocionalmente cada vez mais próximas e a querer crescer juntas, apoiarmo-nos uma à outra nesta aventura chamada vida. O que seria de mim hoje em dia se não tivesse partilhado um meme de gatinhos? Não quero nem pensar.
É por estas e por outras que por muito que me irrite com certas coisas do Twitter, que por mais que perca horas de vida a bloquear energúmenos ou a ficar passada como há gente tão estúpida que não tem vergonha nenhuma de o ser, esta rede social do inferno vai ter sempre um lugar especial no meu coração.
Ainda assim, provavelmente devia passar lá menos tempo, né? Quem sabe um (outro) dia.


Heheh quem diria que estar no lugar certo na hora certa poderia significar estar online nesse lixão a céu aberto :P coisas da vida.
Eu estive por lá 10 anos. Sob um pseudónimo. Foi a minha rede social favorita. Muitas das coisas que mais gostei de escrever escrevi-as lá, assim que as ideias me apareciam. Mas mais importante do que isso… Ri-me muito com o que o resto da passarada escrevia. A minha fase favorita foi quando só tínhamos 140 caracteres. Quanta genialidade cabia em tão poucas letras… lembro-me de muitas coisas… lembro-me da hashtag #illridewithyou durante um sequestro terrorista em Sidney e de pensar como era curioso ver no mesmo evento o melhor e o pior do ser humano. Também fiz por lá alguns amigos. Saí de lá quando se tornou no esgoto a que te referias.
Cheguei aqui (ao substack) há uns dias e estou entusiasmado com esta rede social como não estava há muito tempo… sinto-me o ovo que era a fotografia de perfil que tínhamos por defeito quando chegávamos ao Twitter. Espero que o substack leve muitos anos a desvirtuar-se. Temo que levará muito poucos. Mas, por enquanto, só quero aproveitar.