Como fazer amigos depois dos 25
Já ouvi e já li muitas pessoas queixarem-se que depois da faculdade é muito difícil fazer amigos. Nunca entendi esta dificuldade. Como tal, decidi escrever este texto que, com um pouco de sorte, ajudará alguma alma com limitações amigáveis a expandir o seu círculo social.
Antes de mais, é importante estabelecer que as pessoas só acham (mais) fácil fazer amigos na escola e na universidade, porque são locais onde se está de segunda a sexta com as mesmas pessoas, de idade parecida à nossa, durante meses e anos a fio. Esta é uma realidade que só existe mesmo nestes sítios. Não há nenhum local de trabalho, nem nenhum ginásio, nem nenhuma rede social, onde toda a gente tenha a nossa idade ou 3 anos acima ou abaixo.
Outra coisa que é relevante ter em conta é que essas amizades são estabelecidas por proximidade obrigatória. Por acaso estamos ali todos os dias àquelas horas, portanto se eu gosto mais de A e B, vou passar o meu tempo naquele local com A e B em vez de com J e F. Passar mais tempo com A e B faz com que me aproxime deles, mas serão realmente meus amigos se só os vejo na escola/universidade ou em eventos à volta disso?
A verdade é que até podem ser, mas se a base do convívio for apenas a escola/universidade, são amigos que só durarão esse período de tempo. E está tudo bem, amigos há muitos! Mas se vocês mal conseguiram manter os amigos da escola/universidade e agora têm dificuldade em arranjar novos, isso significa que vocês não deram o salto para um ponto essencial a todas as relações: a intencionalidade.
Vamos então aos passos mais importantes para fazer amigos depois dos 25, começando por isso mesmo:
1- Intencionalidade
Parece parvo ou óbvio, mas tem de haver a intenção de manter a pessoa na vossa vida. As pessoas não ficam amigas por 10, 20, 50 anos por magia e coincidência; ficam amigas porque não se querem perder. E isso implica procurar contacto mesmo quando o local ou a circunstância que as aproximou se desvanece: telefonar de vez em quando, mandar mensagem a saber como a pessoa está, combinar planos. Todas ou praticamente todas as relações exigem esta intencionalidade para se manterem a longo prazo, mas isso tem de acontecer de parte a parte, o que me leva ao meu segundo ponto.
2- Reciprocidade
Já alguma vez sentiram, em relação a alguém, que eram sempre os primeiros a mandar mensagem ou a tentar combinar qualquer coisa? Não estou aqui para vos dizer que isso é um problema. Há pessoas que genuinamente têm pouca capacidade de iniciativa, no entanto estão sempre prontas para dizer que sim aos vossos convites ou a dar conversa quando vocês iniciam contacto. São recíprocas de uma forma mais tímida ou introvertida, mas demonstram o seu interesse sendo abertas e reativas à vossa amizade.
Para mim o problema coloca-se quando, sendo vocês uma pessoa sem qualquer problema de iniciativa, do outro lado se deparam com alguém que nunca pode fazer nada ou ir a nada e, o mais grave, não sugere alternativas nem nunca faz ela os convites. Acredito que todas as pessoas merecem oportunidades, então eu tenho por norma insistir algumas vezes porque a vida de adulto não é fácil e as pessoas podem estar a atravessar uma má fase, mas se uma pessoa mete conversa ou propõe planos duas, três, quatro vezes e do outro lado encontra sempre uma parede, então é hora de nos retirarmos. Se eles algum dia estiverem dispostos à reaproximação, cabe-lhes a eles esse trabalho.
3- Esforço
Tenho a sensação que as pessoas acham que “esforço” tem conotação negativa. Fala-se muito de facilidade com admiração - “Ah, vejo o Fulano de 3 em 3 anos e parece sempre que nos vimos ontem” - mas não se parece reconhecer que se se for participante ativo na relação/amizade, que se se estiver conscientemente presente nela, essa dita facilidade constrói-se no dia-a-dia e tem muito mais confiança, intimidade e força do que a facilidade da interação relaxada que acontece de vez em quando e corre bem. Esforço não tem de ser algo negativo, pelo contrário. Exige esforço ir beber um copo ao outro lado da cidade depois de um dia de trabalho. Exige esforço lembrar da consulta da amiga ou da entrega de projeto do amigo e pegar no telefone para saber notícias. Exige esforço pensar em e comprar (ou criar!) uma prenda de anos. Exige muito esforço abrir as portas de nossa casa para receber quem amamos num momento de convívio. É um esforço que tem de ser feito porque as pessoas e as relações valem a pena e sem elas a vida brilha menos.
Terão com certeza notado que o que escrevi acima não ajuda propriamente a fazer amigos novos, mas são condições que considero essenciais à amizade e a qualquer tipo de relação. Sem elas, as pessoas não ficam. Sabendo então as condições para a manutenção de uma amizade, como chegar ao ponto de chamar a alguém amigo se já não se está na escola/faculdade a levar com aquela cara diariamente?
4- Aproveitar o contexto em que se está inserido
Não acreditem na propaganda. É possível sim fazer amigos no trabalho. Já tive muitos trabalhos (empregos?) - mais sérios, menos sérios, precários, a contrato, em terra, no mar, em Lisboa, no estrangeiro, no cu de Judas - e de todos eles trouxe ou um amigo ou uma dessas pessoas que falo de ano a ano e nos gostamos de graça. O trabalho é o substituto natural da escola/faculdade na medida em que é um local onde se tem de estar dia após dia com as mesmas pessoas. Encontrar um/a aliado/a no local de trabalho é crucial à sobrevivência no emprego porque todas as circunstâncias da existência são melhores sendo partilhadas com pessoas que gostamos. Termos alguém para nos ajudar, para fofocar, para proteger as nossas costas caso seja necessário, torna o fardo do trabalho mais fácil de carregar. E é muito natural o surgimento de simpatia ou ligação quando há assunto em comum, mesmo que esse assunto seja o patrão, o cliente chato ou o projeto que se tem de entregar daí a três dias. Têm de passar dezenas de horas do vosso mês num sítio? Falem com as pessoas que também lá estão, façam-lhes perguntas sobre a sua vida, mostrem-se interessados no que aprendem sobre elas e voltem a tocar no assunto noutro dia, convidem-nas para partilhar a pausa do café, do cigarro ou do almoço. Com sorte encontram alguém com quem se dão tão bem que faz todo o sentido haver café, cigarro ou almoço noutro momento qualquer, fora do local e horário de trabalho.
4.1- Outros contextos
Porque a vida não é só trabalho (felizmente), há muitos outros contextos em que podemos estar inseridos. Se fazem desporto - qualquer que seja -, essa é uma oportunidade para conhecer pessoas e fazer amigos. “Ai mas corro sozinhe ao fim do dia” - deixa de ser anti-social e junta-te a um grupo de corrida para teres companhia uma ou duas vezes por semana!
Voluntariado é outra área em que se conhece imensa gente e por norma são pessoas com interesses/valores alinhados com os nossos. Há muitos tipos de voluntariado e se uma pessoa escolhe ir fazer companhia a velhinhos ou limpar abrigos de animais ou distribuir comida a sem-abrigo, por entre inúmeras opções de trabalho voluntário, encontrará com certeza outros voluntários com interesse nesses grupos e nas suas necessidades.
A internet é também um local de excelência para conhecer pessoas novas. Ninguém tem de se manter um ícone e um @ na tua vida. Haverá redes melhores que outras para se conhecer pessoas novas, mas se eu já fiz amigas no Twitter, no Tumblr e até no Wattpad e AO3, deve ser possível conhecer gente noutras redes também.
Por fim, se em todos estes potenciais contextos estão rodeados de pessoas desinteressantes ou com quem não se identificam, resta mesmo procurar outros contextos onde se inserirem. Sem isso fica complicado.
5- Iniciativa
Eu sei que isto é um celeuma para muitos. Não sei se por introversão, timidez ou medo da rejeição, mas há muita gente que fica no seu cantinho à espera de uma abordagem de outra pessoa, ou de um convite para fazer alguma coisa. Quero que saibam que vocês podem simplesmente tomar a iniciativa das coisas. Há um filme que querem ver no cinema; há uma nova exposição no museu de arte local; há bola em direto no café central? Porque não perguntar a alguém se quer ir convosco? Acreditem que muitas vezes a resposta vai ser sim e, quando for não, a pessoa vai ter pena de não poder ir porque já tinha outros planos. Isto é daquelas coisas que pode custar um pouco ao princípio, que pode parecer ir contra a vossa natureza, mas que se torna muito fácil com a prática. Aqui usei planos como exemplo, mas enviar uma mensagem primeiro também é uma iniciativa que se toma. Não podemos ficar só à espera que a vida nos aconteça - também temos de fazer por a vida nos acontecer.
O que me leva ao último ponto:
6- Querer
Acho que, muitas vezes, as pessoas só querem as coisas no abstrato. Vêem um episódio de Friends e pensam, “que fofo seria ter um grupo de amigos assim,” mas não pensam na parte em que 4 daqueles 6 amigos vivem no mesmo andar e um quinto vive no prédio em frente - voltamos à questão da proximidade geográfica. Também não pensam que conviver frequentemente com um grupo de amigos exige esforço. Sem a Monica, aquele grupo só se encontraria no café. A casa dela é que está sempre aberta, há sempre comida e bebida, espaço no sofá e coisas para ver na TV. Bastava a Monica não querer ser o coração daquele grupo de amigos e Friends teria um terço dos episódios.
Muitas pessoas queixam-se que não têm amigos ou não conseguem fazer amigos, mas será que querem realmente? Será que querem interromper um serão para ouvir falar mal de um namorado? Será que querem tirar tempo do dia para ir a um hospital ou a um velório? Será que querem correr o risco de uma atitude ou fala do amigo as magoar? Nem é preciso ir tão longe: será que querem o suficiente para trocar números de telefone com um colega de trabalho ou alguém que conheceram num evento social aleatório? Será que querem o suficiente para mandar uma DM numa rede social ou para combinar um café? Será que querem mesmo fazer amigos ou querem só que uma Monica as escolha e tenha ela o trabalho de erguer dali uma amizade?
Ficam estas questões para pensar. Claro que há muitas variáveis e não tenho dúvidas que pessoas extrovertidas têm mais facilidade nestas áreas, mas amizade não é um monopólio da extroversão. Há que começar por algum lado e se estão a sentir que precisam de pessoas novas na vossa vida, que este texto vos sirva de sinal para seguir em frente e arriscar.


Excelente texto!
Acha que há diferenças entre mulheres a fazer ou criar amizade com outras mulheres e homens a fazer amizade com outros homens, ou será mito?